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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Falando de Serestas e Seresteiros

Hoje vamos falar das Serestas, muito embora nosso tema principal seja o gênero 'choro' vamos saber um pouco mais, principalmente os mais jovens, sobre as Serestas e os Seresteiros.

Serenata, segundo os dicionários é um concerto à noite, ao ar livre, mas também pode ser nome de certas melodias simples e graciosas.

Não se trata propriamente de um modalidade musical, mas de uma forma interpretativa ou de um conjunto instrumental destinado a acompanhar pelas ruas e estradas um cantor solista.


Seresta é como que uma corruptela de serenata e afirmam os autores que foi introduzida entre nós pelos negros e mulatos.

No entanto a palavra serenata vem do castelhano serenada, de serenos, já sendo conhecida em nossa terra desde 1717. É o que se deduz da nota de certo viajante francês que a registrou quando passou pela Bahia. "À noite outra coisa eu não ouvia senão os tristes acordes de um violão. Os portugueses vestidos de camisolões com o rosário a tiracolo, a espada nua debaixo daquelas vestes e armados de violão passavam sob as janelas de suas damas e em tom de voz ridiculamente terna cantavam modinhas que me faziam lembrar a música chinesa ou as nossas "gigas" da Baixa Bretanha.

Como vemos a mania das serenatas já era da terra quando os negros e mulatos entraram a imitar o branco com o jeitinho todo especial de interpretação que se transformou em seresta. Não se deve pensar numa influência "jazz" nas nossas serenatas pois aquelas são muito mais antigas que esse em terras brasileiras, embora a formação instrumental e o processo de composição (improvisação livre) com o contracanto tão do gosto brasileiro.

As serestas eram realizadas nas ruas, estradas e praias quase sempre para despertar alguém que se tornara preferida em amores, em noites de lua, quando havia poesia e lirismo e a idéia de ir à lua era coisa que não entrara ainda nas nossas cogitações. Foi desse hábito das serestas que surgiu o seresteiro de voz possante e extensa para encher o espaço de melodias que deviam ecoar longe. Dessa classe de cantores da noite ficou-nos Vicente Celestino e já se foi para sempre Augusto Calheiros, o Patativa do Norte.

As serestas e os seresteiros de antigamente foram muitos perseguidos pelos mandantes da época. Na verdade houve tempo que cantar ao sereno e tocar violão era coisa de capadócio, crime que devia ser punido severamente.

Em ofício dirigido ao senhor ouvidor, o famoso Vidigal, comandante da polícia do Rio de Janeiro ao tempo de dom João VI assim apresentava um acusado de serenata: "... e se v. exa. ainda tiver dúvidas quanto à conduta do réu, queira examinar-lhe as pontas dos dedos e verificará que ele toca violão. A verdade é que havia e houve até o nosso século uma verdadeira perseguição a serestas e seresteiros.

Sempre houve porém uma grande diferença entre o seresteiro da cidade e o seresteiro, digamos assim, do interior. Na cidade sempre se cultivou a modinha enquanto no interior os trovadores eram outros, trovas mais líricas e apaixonadas, mais puras e ingênuas, mais doces e sinceras. De fato pelos títulos das modinhas de talvez um século atrás, pode-se fazer uma idéia do estado emocional do povo daquela época: Tive amor, fui desditoso, Do ciúme atroz veneno, Tristes as negras saudades, Ô, parca tirana, parca, Sem ciúmes, sem suspeitas. Havia muita pieguice, muito sentimentalismo exagerado nas interpretações. Mas, o trovador de serestas, negro ou mulato, desabrido e desordeiro também cantava lundus e fandangos e por que não fados se querem muitos que ele tivesse ido do Brasil para Portugal?

Desse tempo distante chegou-nos a fama de um certo mulato Joaquim Manuel, talento musical extraordinário. Exímio tocador de violão, popularizou entre nós o cavaquinho. De Freycinet ouviu-o e deixou registrado no seu livro, que "Joaquim Manuel era um cabra tão cuéra no violão que deixava longe qualquer guitarrista europeu". Pernóstico e vaidoso em extremo Joaquim Manuel só cantava suas produções, que só por isso não tiveram maior divulgação, embora fossem editadas em Paris. Tão antipático era esse mestiço trovador que mereceu de Bocage o achincalhe de um soneto satírico. Mais ou menos da mesma época foi outro trovador — seresteiro que o povo alcunhou de "poeta guri".

Ficou na história da cidade por ter evidenciado numa crítica impiedosa desabusada mesmo a paixão dizem que platônica do vice-rei dom Luís de Vasconcelos por uma moreninha, a Suzana da rua das Belas Noites (antiga Marrecas) e que involuntariamente concorreu para a construção do nosso Passeio Público.

Com dom João VI a música popular não progrediu muito, não que o grande rei concorresse para isso, mas a religiosidade do tempo fez com que os artistas se voltassem mais para a música erudita e sacra. Já com dom Pedro I, a seresta e os seresteiros tiveram sua época. Dom Pedro I era um apaixonado pela noite e embuçado na sua capa preta e chapéu desabado, ia com o Chalaça cantar em serenatas terminando as pândegas no botequim da Corneta ou na casa de Domitila. Ainda no tempo de Regência, o gosto pelas serestas era bem pronunciado e havia seresteiros famosos, não só de modinhas, mas também de cantigas que se fixaram na época. Um lundu muito cantado pelos seresteiros como desabafo político foi, sem dúvida, o Mãe Benta nome de uns docinhos que vêm atravessando o tempo e que chegou a nossos dias. Eram feitos pela preta Mãe Benta para o cafezinho da merenda do Padre Feijó.

— Mãe Benta, me fia um bolo?

— Não posso senhor, Tenenta,

Que os bolos são de Iaiá Não se fiam a toda gente.

Quanta malícia não havia nessa quadrinha ingênua, assim de relance.

Com Dom Pedro II, houve uma verdadeira ressurreição das serestas e conseqüentemente dos seresteiros. Ficou na história da cidade o Anselmo, o maior seresteiro daquele tempo, exímio violonista da época, famoso pelo seu vastíssimo repertório, diziam que era capaz de cantar uma noite inteira sem repetir música cantada.

A [Patalógica] do Rocio Grande não era apenas o centro de literatos da escola de Machado de Assis, mas também trovadores, seresteiros e poetas. A lira melancólica e a sátira irreverente de Laurindo Rabelo eram musicadas por ele próprio ou pelos nomes mais em evidência entre os compositores da época. Daquele tempo é o Gosto de ti, por que gosto que Sátiro Bilhar cantava no tempo de Catulo, dizendo-se o autor. Os versos, não há a menor dúvida, são de Paula Brito e a música parece que composta pelo Cunha dos Passarinhos, compositor muito querido no beco do Cotovelo. O maior seresteiro do século XIX foi Xisto Bahia, que sem saber música compôs verdadeiros sucessos, cujo maior foi, sem dúvida, Quis debalde varrer-se da memória...

As serestas e os seresteiros entraram pelo século XX com toda força de seu entusiasmo e muitos deles deixaram nos seus trovares verdadeiras jóias da música popular do Brasil.

("Serestas e Seresteiros" foi primeiramente publicado por Marisa LIRA no "Diário de Notícias" do Rio de Janeiro, Brasil, de 01 de dezembro de 1957. Documento extraído da edição on line http://jangadabrasil.com.br/revista/outubro83/fev83010a.asp-17k)







Fonte:Informações trovadores.uol.com.br

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Conservatória-RJ: A cidade da seresta

 Conservatória é o sexto distrito do município de Valença, no estado do Rio de Janeiro. A 370 quilômetros de São Paulo, 142 quilômetros do Rio de Janeiro, 28 quilômetros de Barra do Piraí e a 34 quilômetros da sede municipal.
O distrito tem uma população de 4.182 habitantes, de acordo com o Censo 2010 do IBGE.

Anteriormente denominado Santo Antônio do Rio Bonito, situa-se em um vale da Serra do Rio Bonito, com área aproximada de 240 km². Faz divisa com o estado de Minas Gerais, com os distritos de Santa Isabel do Rio Preto, Parapeúna, Pentagna, Valença (sede do município de mesmo nome) e com o município de Barra do Piraí.

Serenata e paixão


A prosperidade econômica do final do século XIX deu início a outra tradição na vila: a das serenatas - a música cantada sob o sereno -, que hoje atraem mais de mil pessoas a cada fim-de-semana para a cidade, vindas dos mais diversos recantos do país e do exterior.

Um dos grandes motivadores da tradição da música na cidade é o Museu da Seresta, que tem o maior acervo de músicas de serestas do país - e um dos maiores do mundo -, criado pelos irmãos Joubert de Freitas e José Borges Neto, já falecido. O museu mantém viva uma página da cultura musical brasileira, reunindo os seresteiros às sextas-feiras e sábados à noite, que de lá saem para cultivar o hábito, raramente quebrado, de cantar pelas ruas da cidade.

Em 1998, Conservatória comemorou 120 anos de serenatas. Conta a história que a tradição nasceu com um romântico professor de música e tocador de violino, Andreas Schmidt, que, em uma noite enluarada no silêncio do vilarejo, atraiu espectadores, e o professor Andreas passou a ter como rotina tocar seu violino na praça, nas noites estreladas. Aos poucos, músicos vindos de outros lugares passaram a acompanhar as serenatas do professor, e essa virou uma característica incorporada ao lugar.

Música e grandes paixões sempre estiveram de mãos dadas em Conservatória e geraram muitas histórias de amor. Certa vez, em 1938, Antonio Castello Branco, um abastado fazendeiro de Santa Isabel, distrito vizinho, que vivia uma paixão não correspondida por uma moça de Conservatória, resolveu demonstrar seu amor conforme a tradição. Colocou seu piano de cauda em cima de um caminhão e percorreu mais de 20 quilômetros em estrada de terra esburacada, só para tocar e cantar sob a janela da amada. Consta que o gesto deu resultado, e a moça aceitou o fazendeiro como esposo.

Conservatória exprime uma das formas de reação contra as consequências da urbanização acelerada, que caracteriza nossa etapa de desenvolvimento como país capitalista, mantendo suas características bucólicas de arraial, pacata e tranquila, cujos moradores de fala branda, afáveis e educados preservam seus costumes e se reúnem, vez por outra, para manter a tradição das festas juninas, da dança, da música, das quadrilhas e principalmente das serestas que tornam seu pequeno vilarejo um pólo de atração turística no estado do Rio de Janeiro. Em Conservatória, o culto às serestas, o casario colonial e as famílias tradicionais são ainda vestígios do século passado.

O fim do ciclo do café resultou na decadência da agricultura na região, e muitas das centenárias fazendas foram abandonadas. Algumas estão preservadas, inclusive mantendo uma pequena produção de café; outras mudaram sua atividade produtiva, e hoje desenvolvem a pecuária leiteira. Mas a beleza do lugar, sua deslumbrante paisagem, composta por vales e cachoeiras, as relíquias históricas preservadas no tempo e a tradição das serenatas abriram outros caminhos de sucesso para Conservatória.
Um dos símbolos da história do lugar que está logo na entrada na cidade: a antiga "Maria Fumaça", da Rede Mineira de Viação, que puxava os vagões de passageiros e também o trem com a produção de café, hoje estacionada em frente à antiga Estação Ferroviária de Conservatória, atual rodoviária.

A linha ferroviária e a estação, inauguradas por D. Pedro II em 21 de novembro de 1883, foram extintas após a instalação da indústria automobilística no Brasil e da política de construção de rodovias para privilegiar o transporte rodoviário de cargas, nos anos 1960. Por aquela ferrovia, o vilarejo se interligava com o Rio e Minas, partindo de Barra do Piraí - município do qual Conservatória foi distrito de 1943 a 1948, quando passou a pertencer a Valença - e chegando até Baependi, após Santa Rita do Jacutinga, em Minas.

Outro ponto procurado por turistas e frequentado por moradores é o balneário municipal João Raposo, antes da estrada que leva a Valença, conhecido como Cachoeira da Índia por ter no meio do lago formado pela cachoeira uma escultura em bronze, que evoca uma mistura de índia com sereia. Alguns quilômetros no sentido de Valença fica o Ronco D´Água, ponto turístico com quedas de água que descem por uma encosta artificial, formando uma escadaria e fazendo com que seu barulho seja ouvido a quilômetros de distância.

Com o fim da ferrovia, Conservatória ficou isolada dos grandes centros. O acesso, por Barra do Piraí, Santa Isabel, Valença ou São José do Turvo, era precário, por estradas de terra, com cerca de 30 quilômetros, que muitas vezes ficavam interditadas na época das chuvas. Nem mesmo essas dificuldades, no entanto, afastaram os amantes das serestas e da cidade, que permaneceram fiéis à tradição, frequentando e divulgando o lugar.

Nos anos 1980, teve início a pavimentação do trecho de estrada ligando Barra do Piraí à Ipiabas, facilitando o trajeto até a cidade. Em 1998, finalmente, foi inaugurada a pavimentação por asfalto do trecho de 15 quilômetros entre Ipiabas e Conservatória, reforçando o desenvolvimento turístico da cidade e abrindo novas perspectivas econômicas para a região.

Música: fator de desenvolvimento local

Conservatória sofre, como outras localidades do Estado do Rio de Janeiro, o problema do êxodo rural. Mas esse fenômeno não lhe traz grande abatimento econômico devido ao fluxo turístico, 90% do Rio de Janeiro e de São Paulo, atraído pela tranquilidade bucólica e por apresentações teatrais, esportivas e, principalmente, musicais.

A tradicional serenata, realizada toda sexta-feira e sábado, partindo às 23h do Museu do Seresteiro e seguindo noite adentro, é o elemento nuclear das atrações musicais, que também incluem a Solarata (realizada nas manhãs de domingo) e as serestas (canto em espaços fechados) realizados em diferentes hotéis e pousadas.

Os turistas são atraídos pela atmosfera romântico-musical das diferentes apresentações, hospedando-se nos hotéis e pousadas para poderem acompanhá-las. Geram, dessa forma, um importante fluxo de renda e consequente emprego de mão-de-obra local.

Segundo o superintendente de Economia da Cultura da SEDEIS, Luiz Carlos Prestes Filho, a Secretaria tem focado também ações para promover a formação de pessoal para atender o crescimento da indústria do turismo local. Conservatória conta atualmente com mais de 2 mil leitos para atender os turistas, e esse fluxo exige uma qualificação maior de seus técnicos nas fazendas, hotéis, pousadas e restaurantes.








Fonte:wilkipédi

 
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